Copacabana

Uma manhã fosca em Copa

Uma manhã fosca em Copa.

A quarta-feira acordou nublada e pouco quente em Copa. O vento fresco vindo da praia deixava a atmosfera mais leve do que o habitual. Copacabana é um bairro superpopuloso e com uma temperatura própria. Se é dia de semana e com sol, os termômetros do bairro batem forte, mas se é fim de semana com o mesmo sol, eles estouram. Agora, quando não há sol e o vento carrega a umidade da praia para o interior do bairro aí o clima fica mais para nostálgico. Eu gosto. Me faz lembrar do subúrbio onde fui criada. Não me perguntem porquê. Não saberia responder. Lá onde cresci não tinha praia, nem vento fresco, nem dias nublados. Todo dia brilhava com uma força indescritível. Mesmo quando o sol decidia não aparecer. Sei que chovia. A gente tomava muito banho de chuva no quintal, na rua, na calçada, mas parece que até nesses dias o brilho era ofuscante. Acho que olhos de criança vêem assim. Tudo sempre com purpurina.

Copa amanheceu fosca. Fui ao mercado mais próximo. Não o mais barato. Apenas o mais próximo. Estava meio sem tempo. Dei uma espiada nas filas e me surpreendi. Hoje até elas decidiram não aparecer. Vai ver foram dar uma voltinha com o sol. Corri para a seção de frios, certa de que ao voltar para os caixas, as filas já teriam terminado o seu passeio e estariam ocupando a entrada do estabelecimento. Lépidas e fagueiras.

A moça dos laticínios foi rápida. Peguei um pão de forma e corri para os caixas. Tinham três funcionando. O número 1, que é preferencial, estava fechado. No caixa 2 tinha uma senhora terminando de passar o que me pareceu um carrinho cheio, mas faltava pouco. O número 3 estava pedindo troco a fiscal para fechar a conta de um casal de idosos. O número 4 era meu. Só meu. Comecei a passar minhas poucas aquisições. Logo atrás de mim chegou um rapaz com uma cesta que não continha mais que 6 itens, dos quais 4 eram latinhas de cerveja. Ainda não eram 9h da manhã. Fiquei pensando em como seria o dia dele. Já me preparava para pagar quando ouvi uma voz estridente vindo de trás de mim. Não era a do rapaz.

Uma senhora aparentemente bem saudável, vestida com roupas de ginástica e maquiagem um pouco carregada para quem está vindo de uma manhã de exercícios, falava alto. Reclamava que o caixa preferencial estava fechado. Dizia que não era justo logo quando ela aparecia no mercado o tal caixa não estar funcionando. Gesticulava, caminhando de um lado para o outro sempre apontando para o caixa preferencial. Fechado. Estava ficando desagradável. As funcionárias se entreolharam. Eu, enquanto passava o meu cartão, procurava as filas nos outros caixas. Não existiam. O carrinho cheio já havia ido embora e o casal de velhinhos estava prestes a receber o troco. Não entendi o porquê da irritação.

Me virei para digitar a senha do cartão. A senhora se virou para o rapaz das cervejas e começou a contar novamente a história de que toda a vez que ela resolve ir ao mercado a moça do caixa preferencial some. Em voz alta. Bem alta. O rapaz lhe retribuiu um sorriso baixo e ofereceu seu lugar na fila. Que fila? Ela, sempre escandalosa, agradeceu dizendo que ele era jovem e podia mesmo esperar. Deselegante até para agradecer.

Peguei meu cartão. Olhei novamente em volta. O caixa 2 continuava vazio. O dos velhinhos acabara de esvaziar. E a minha atendente gritou pelo próximo da fila. Lá foi a senhora.

Já deixava o mercado, que continuava sem filas, e ouvi a mesma história contada agora para a minha atendente. A senhora definitivamente não era discreta. Nem feliz. Pisei na calçada ouvindo aquela voz esganiçada reforçar que a vida não era justa, porque se fosse a menina do caixa preferencial estaria disponível para atendê-la.

Fui embora do estabelecimento com a certeza de que se as pessoas observassem mais antes de falar, ouvissem mais antes de questionar e pensassem mais antes de se manifestar talvez a vida fosse realmente mais justa. E sendo mais justa, talvez aquela senhora jamais tivesse aberto a boca para reclamar da menina do caixa preferencial que foi ao banheiro, pois veria que existiam outros caixas disponíveis. Talvez se envergonhasse de mostrar sua falta de visão, sua forma obtusa de ver as coisas que a impossibilitava de vislumbrar outros caminhos. Ou talvez ela não aceitasse passar na frente do rapaz, pois não perderia mais que 2 minutos na espera. Bem neste momento meus pensamentos me levaram para outro caminho. Um caminho mais cinza do que a atmosfera de Copa nessa manhã nublada de quarta-feira.

E se aquela senhora que clamava por justiça num mercado vazio desejasse apenas ser notada? E se sua vida fosse tão vazia que precisasse buscar a solidariedade de estranhos para um infortúnio que sequer existia? E se pior, ela fosse tão egocêntrica, que se tornasse incapaz de enxergar além de suas próprias vontades? Mesmo que fosse um simples caixa de mercado disponível ao seu lado…

É, a vida definitivamente não é justa. E nem tão brilhante quanto era antigamente… Hoje Copa estava fosca.

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Comentários

  1. 12 de março de 2015 at 12:33 — Responder

    Acontece de montão! Acredito que é mesmo a vida vazia, pelo abandono dos familiares, que as fazem querer aparecer, não importa como.

  2. Ana Luiza Ferreira Leite
    14 de março de 2015 at 13:01 — Responder

    Adorei seu blog! Vc escreve super bem, não vamos nos perder de vista heim. Bjs Ana Luiza

    • 15 de março de 2015 at 01:53 — Responder

      Que bom que gostou, Ana Luiza. Espero que depois das dicas vá ficando melhor… rsrsrs. Vamos mantendo contato! Bjs

  3. Maria Pilar Blanco
    8 de abril de 2015 at 13:38 — Responder

    …é Karin, infelizmente… algumas pessoas…poucas….mas algumas…que não importa —– ..pelo quê.. ou o porquê….sempre vão achar alguma coisa alguma coisa pra reclamar…. essas poucas pessoas.. definitivamente, não importa o que você faça …..jamais verão qualquer razão para serem felizes …na vida…, e acabam na solidão….
    Vou confessar um falha minha…eu não tenho nenhuma paciência para com elas

    Que pena …
    Bjs

    • 8 de abril de 2015 at 14:48 — Responder

      Pois é Pilar, eu acho que muitas dessas pessoas, na verdade, encontram a felicidade na reclamação. E para isso eu também não tenho paciência. Rsrsrsrs! Bjs

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