Cabeça de Mãe

Trabalho de mãe.

Trabalho de mãe.

Há algum tempo tenho me dedicado a escrever. Um trabalho que demanda concentração, foco e leitura. Em casa perco nos três quesitos. Sento e juro que vou me concentrar apenas na tela do computador ou na página do livro da vez. Desligo o celular, faço um chá e me preparo para a viagem.

Vou escrevendo e bem no segundo parágrafo, quando chego tão longe, já lembrei que tem roupa para colocar na máquina. Tiro da cabeça. Mais duas palavras à frente, olho no relógio e me permito uma pausa rápida para colocar a roupa na máquina. Vai ser rapidinho. Passo pela cozinha e vejo a louça do café esperando ansiosa para ser lavada, quase gritando o meu nome. Atendo ao chamado. Lavo a louça e ligo a máquina, mas antes de colocá-la para bater resolvo ver se tem mais alguma peça de roupa esquecida em um dos quartos. Passo pela sala. Mais um copo sobre a mesinha. Recolho. No quarto da Ana encontro o jaleco do laboratório que ela me pediu para passar. Terá aula no dia seguinte. Coloco no ombro. No quarto do Pedro duas blusas atrás da porta, fortes candidatas a ir para a máquina, vão para o outro ombro. No nosso quarto um copo com água que precisa ir para a pia. Já me sentindo um polvo, recolho tudo e volto para a cozinha. Ligo a máquina, termino de lavar a louça que faltava e vou passar o jaleco da Ana.

Volto para o meu texto. Onde parei mesmo? Volta inspiração, por favor! Volta pra mim! Ela está de pirraça porque a abandonei por meros trabalhos domésticos. Aqueles que, quando a gente faz e deixa tudo limpinho e lindo e cheiroso, ninguém nota, mas quando a gente resolve deixar para o dia seguinte… todo mundo repara. Ok imaginação, quer brigar? Não vou cair na pilha. Hoje não. Vou ler, então.

Sento no sofá da sala e ajusto o abajur. Esse tempo frio e nublado, incomum aqui no Rio, faz tudo ficar mais aconchegante. Meu chá, que estou me habituando a tomar (porque faz bem e acho chique. Não necessariamente nessa ordem. Rs) já esfriou. Puxo uma cobertinha e me arrumo confortavelmente. Abro o livro. Cadê os óculos? Putz, agora ainda tem esse charme que não me abandona mais. Na estante. Me levanto e vejo que o móvel da TV está um horror de empoeirado. Parece que nevou aqui em casa. Socorro! Um paninho não fará mal. Rapidinho me livro daquela caspa toda sobre a madeira e posso retornar ao livro.

Sofazinho delícia me acolhe de braços abertos. Óculos, sofá e livro. Tudo ok. Página 34, vamos lá. A máquina apitou avisando, histérica, que parou de bater. É melhor estender a roupa antes de me perder com Salinger. Roupas no varal, cheirinho de amaciante no ar. Ok, agora sim. A caminho do meu sofá quentinho, o cursor piscando no meio da frase que deixei sem terminar, me chama de volta ao computador. Como tenho dificuldades para recusar apelos, resolvi atender. Produzo mais um parágrafo. Concentrada, focada e completamente desligada dos afazeres domésticos, claro. Agora sim, a caminho do Pulitzer.

Toca o interfone. Damião, meu porteiro, avisa que vai fechar a água em uma hora para uma reforma no apartamento de cima. Corro para a cozinha. O jantar não pode esperar. Enquanto deixo tudo adiantado, uma vassourinha na casa não fará mal a ninguém, né?

Almoço pronto, louça lavada, casa varrida, jaleco passado e comida feita. A casa está linda e cheirosa. Já o meu trabalhinho intelectual…

Amanhã irei para a biblioteca do bairro. Está decidido! Mas antes vou deixar uns tópicos de História para o Pedro ler que tem prova chegando e costumamos discutir juntos a matéria. Na volta tomo o capítulo 5 de ciências da Ana. No caminho de ida, não custa passar no sapateiro e deixar o tênis do Rafa para colar a sola e no caminho de volta, comprar frios para os lanchinhos da escola e umas frutas no hortifruti para colorir a geladeira. É, não custa.

Definitivamente na biblioteca serei mais bem sucedida. Definitivamente.

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Comentários

  1. Nidia Blanco Villela
    29 de junho de 2016 at 16:07 — Responder

    Hahahaha! Só rindo muito! Amei! Aqui em casa não é diferente. Seu pai diz que à noite, quando vou dormir, até chegar no quarto fico “ciscando”. Justamente porque pego uma coisa e outra e vou colocando em seus lugares. Achei demais! Parabéns, garotinha linda!

  2. Rafaela Lima
    29 de junho de 2016 at 16:25 — Responder

    Oi, Karin! Estive fora, mas já estou curtindo novamente. Já estava com saudades de sua poética, que admiro muito. As analogias que você faz, são sensacionais. “A louça do café esperando ansiosa para ser lavada… quase gritando”, “Já me sentindo um polvo…”, “a poeira do móvel da tv como neve”. Simplesmente incrível. Tenho que parabenizá-la, sempre. Aceite um abraço saudoso de alguém que ama ler seus contos.

    • 30 de junho de 2016 at 09:12 — Responder

      Rafaela, que bom tê-la por aqui novamente. Fico muito feliz que você gosta de ler minhas viagens. rsrsrs Muito obrigada pelo carinho e seja muito bem vinda de volta!

  3. Liana Placenti
    30 de junho de 2016 at 13:36 — Responder

    Muito legal. Difícil ser dona de casa e escritora. Mas você consegue. Que bom! Beijos saudosos, minha querida.

    • 1 de julho de 2016 at 08:10 — Responder

      Rsrsrsrsrs. A gente vai se equilibrando, né Liana? Bjs

  4. 6 de julho de 2016 at 09:04 — Responder

    Entrei na personagem.Pensei que era só eu.
    Brigo comigo,que falta de concentração,mas é assim mesmo,Somos Mulher,isto veio com a maternidade.
    Somos polvo,com vário tentáculos,para capturar copos,blusas….
    Perfeito texto que todas gostaríamos de ter escrito.
    Um abraço apertado.

    • 13 de julho de 2016 at 21:15 — Responder

      Polvo definitivamente! Rsrsrsrs Que bom que gostou. Beijo enorme!!!

  5. 31 de julho de 2016 at 16:40 — Responder

    Parabéns por retratar tão bem , não só o seu cotidiano , mas o de muitas de nós .!

    • 7 de agosto de 2016 at 21:34 — Responder

      Somos tantas, né Virginia? São tantos papéis que assumimos diariamente que nem conseguimos contar. Bjs

      • 8 de agosto de 2016 at 19:05 — Responder

        Sim, somos “mullti mulheres”.Bj;.

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