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Tem um peludo pra chamar de seu.

Tem um peludo pra chamar de seu.

As minhas crianças de apartamento continuam de apartamento, mas estão cada vez mais deixando de ser crianças. Pedro já anda sozinho, tem a chave de casa e me passou em tamanho. Ana, por sua vez, embora ainda não seja tão independente assim, já não depende tanto de mim. Fica sozinha em casa e se vira por conta própria. A casa estava ganhando um outro tom. Tom de gente grande. E é bacana também, mas dá uma saudade gigante daquelas artes que nos tiram o chão, nos fazem ficar sem saber o que fazer, numa contradição atroz entre dar uma bronca e uma gargalhada. E essa casa é um lar que precisa ficar sem esse chão de vez em quando.

Bom, como há muito Ana insistia em ter um amiguinho peludo para chamar de seu, achei que esse seria o momento certo. Foi um longo caminho a percorrer. No início, Rafa e eu achávamos que não seria bom para o peludo ficar meio que confinado num apartamento e passar algumas/muitas horas do dia sozinho. Depois, eu passei a achar que, se ele fosse de pequeno porte, não teria muito problema, pois poderia carregá-lo comigo, mas o Rafa ainda se mantinha firme em sua negativa. Ana aumentou seu grau de insistência e ganhou um aliado de peso. Pedro integrou a campanha pró peludo ativamente. Praticamente criaram um partido. Rafa se mantinha firme como uma rocha. Eu já havia amolecido completamente e sonhava secretamente com uma bolinha de pelos passeando pela casa. Resolvi conversar melhor com o Rafa e mostrar que juntos poderíamos dar conta do recado e que faríamos das crianças, crianças novamente. Irredutível estava, irredutível ficou. Usou o argumento do “e se”. Esse argumento é terrível, pois toda vez que começamos com “e se” criamos uma possibilidade que pode nunca vir a se concretizar, algo nada real que nem temos como contra argumentar a não ser no terreno meio escorregadio e amorfo do “e se”. Começou o jogo. Rafa joga bem, admito. Mas sou ótima competidora.

Rafa: “e se ele ficar doente?”

Karin: “a gente cuida, ué?”

Rafa: “e se ele entrar sujo em casa? Você não deixa ninguém entrar de chinelo de rua em casa, como vai fazer com o bicho, arrancar as patas?”

Karin: ” se ele for pequeno, eu lavo no tanque”

Rafa, meio acuado, apela para um argumento super válido, que é um dos fortes pilares de sustentação da família: “e se a gente resolve viajar? Vai largar ele sozinho?”

Bom, eu e a família toda amamos viajar e ele sabia que esse seria meu calcanhar de Achiles, mas como disse, sou ótima competidora e essa foi uma das primeiras dificuldades que eu tentei resolver. Por essa ele não esperava: “Minha mãe se ofereceu para ficar com ele!” E não era mentira. A vovó, também estava louca por um cachorro, mas o vovô, como o Rafa, era irredutível. Ah, esses homens… Mas, a vovó tratou de convencer o vovô a ajudar a filhinha querida a fazer a felicidade da neta amada. Argumentando assim, desse jeitinho, vovô tinha alguma chance de negar? Claro que não. Vovó também é boa jogadora. Só faltava eu vencer o papai no duelo aqui de casa. E se ele apelou para um dos pilares da casa, eu decidi apelar para o outro: a democracia.

Chamei-o para a cozinha, que neste cafofo é o lugar onde costumamos conversar, e lancei a última e certeira cartada: “Rafa, amor, é o seguinte: somos democratas de carteirinha, de rua e de ação, certo? Ensinamos as crianças a defenderem os seus direitos, e que numa democracia que se preze, todos os votos tem que ter o mesmo peso e ser igualmente respeitados, né? E como acreditamos que a educação vem do exemplo, precisamos nos comprometer em cada passo do caminho. Sendo assim, se somos 4 moradores nesta casa e temos 3 votos pró cachorro e só o seu contra, como o seu pode suplantar os demais?” Esboçando seu melhor sorriso, Rafa termina o embate com um belo: “Quando pegamos o bicho?”

E foi assim que Agnes veio parar aqui em casa. Resolvemos fazer surpresa para a Ana e presenteá-la em seu aniversário. Pedro, feliz da vida, nos ajudou com o projeto. Busquei um canil que fosse responsável, que tratasse bem dos seus peludos e fomos parar em Rio Bonito. Mas ainda não estou certa de que seja realmente responsável. Talvez a adoção tivesse sido um melhor caminho, mas quando vimos a Agnes não tinha mais volta. Sabíamos que ela ficaria conosco pra sempre. Chegamos em casa com aquela coisinha miúda entre os braços. Vovó e vovô vieram ver a entrega, claro. Ana, não sabia se ria, se chorava ou se agarrava a pequena para não correr o risco de mudarmos de ideia. Isso se deu no finalzinho de novembro. De lá pra cá, Agnes não podia estar mais grudada na Ana, Ana mais feliz, Pedro rindo à toa e nós novamente sem chão. Principalmente quando pegamos aquela safadinha em cima da mesa de jantar roubando o café da manhã de alguém.

E se a família aumentou, a logo tinha que acompanhar, né? Graças ao talento, parceria e amor do Fernando Franceschini, ela ficou ainda mais bonita e Agnes se tornou a nossa nova criança de apartamento. Bem-vinda, garota!

 

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1 aninho da Agnes!

Comentários

  1. Marcia Cea
    15 de maio de 2017 at 17:49 — Responder

    Linda Karin!!!
    Como as crianças cresceram…
    Parabéns pela mais nova moradora desse Lar Doce Lar…beijos! Marcia Cea

  2. Nídia Blanco Villela
    15 de maio de 2017 at 22:09 — Responder

    Ri muito com a alteração da logomarca do Crianças de Apartamento, agora com a Agnes. Ficou ótima! E o texto? Ora, o texto! Como sempre, gostoso de se ler. Como um excelente vinho que não se quer parar de beber, vamos saboreando cada linha, cada parágrafo e, sem sentir, chegamos ao final, e… procurando por mais. Delicioso! Parabéns!

    • 16 de maio de 2017 at 14:13 — Responder

      Ah mãe, que bom que você curte. E parabéns pela netinha peluda que você ganhou1 rsrsrsrs

  3. Maria Pilar Blanco
    21 de maio de 2017 at 15:21 — Responder

    Prima, me desculpe estou atrasada com minha leitura….(e-mails)… entra uma tonelada….e os teus merecem leitura lenta e calma.. pra curtir muito…

    Texto Lindo… (como sempre) …tenho 2 gatas (mãe e filha)….é mais fácil de cuidar e pra viajar é mais fácil (gatos são mais independentes que cachorros)… Mas para interagir prefiro os cachorros são mais divertidos…

    Bjs
    P

    • 22 de maio de 2017 at 09:06 — Responder

      Duas gatas? Que maravilhoso! A Agnes é meio gata, sobe em tudo, não gosta de muito chamego, só quando ela quer, mas é louca pela Ana. Fica na maior deprê quando Ana sai. Esse será nosso maior problema no quesito viagens, definitivamente. Saudade de vc!

  4. Liana
    25 de julho de 2017 at 18:22 — Responder

    Amei como sempre. Agnes só trouxe alegria. Lindinha.Bjs saudosos

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