Cabeça de Mãe

Sexta com Rita

Sexta-feira, fim de dia. Mais uma semana que chega ao fim. Possibilidades mil para outra que já anuncia sua chegada. Vale um café antes de fechar tudo e ir pra casa. Curtir mais um pouquinho do silêncio que reina absoluto aqui no Kubo. Paz e fertilidade. Paz na fertilidade.

A vitrola me olha oferecida. Pede pra cantar. Prontamente alcanço um vinil da caixa ao lado. Tem que ser bom. O dia pede. Chico é 10, mas hoje é dia de mulher. Rita Lee logo se apresenta. Abusada, vai chegando e me carrega de volta pra casa. Que Flagra! Aterrisso em 1982. Cascadura, Rio de Janeiro, Brasil. Feito barata tonta me pego adolescente, com cabelos estranhos e pele tão lisa que mal me reconheço. Meio menino, meio mocinha, meio estranha. Adolescente sofre.

Olho ao redor. Minha casa tá linda. Fim de dia. Meu pai tá chegando do trabalho. É sexta-feira. Minha mãe ri das proezas do meu irmão super fofo. Maximinha lavou o quintal e exige respeito com seu feito. Tá melhor que o da dona Conceição, ora! E olha que dona Conceição era o modelo dos caquinhos mais limpos e brilhosos do bairro. Dureza competir. Os cachorros eufóricos, ignoram solenemente as ordens de Maximinha. Minha dinda tá no quintal dela. Somos vizinhas. Essa proximidade conforta, dá sensação de segurança, de cuidado, de vida feliz. Meu tio mora com a gente. Acabou de chegar do trabalho. Nem tirou a roupa social e já se jogou no degrau da varanda pra descascar uma laranja. É sexta-feira! Dá vontade de pedir um pedaço. Escuto meu nome no portão. Claudinha, minha vizinha, irmã, amiga, parceira, me grita já de banho tomado. Blusinha colada e saia curta. Toda cheirosa. Nino chega em seguida. Um primor. Cabelos ainda úmidos aparecem milimetricamente repartidos por uma cuidadosa dona Helena. O sorriso fofo mostra os dentinhos de leite delineando a bochecha pronta para apertar. Quero tanto abraçá-los, dizer o quanto eles me farão falta, que a vida de adulto é esquisita, que a gente quase não arruma tempo pra brincar, que subir na goiabeira será impossível, que o pique esconde acaba escondendo a gente de quem a gente ama, que o sorvete engorda, que o refrigerante dá câncer, que o iô-iô da coca-cola vai virar recordação, mas não faço nada disso, corro pro portão e não perco tempo. Vou brincar até minha mãe gritar da janela da sala que tá na hora de jantar. E vou pedir pra ficar mais um pouco. Vou negociar minutos. Ralar mais uma vez o joelho pra levar uma cicatriz de volta comigo pros 40 anos.

A rua tá linda. Uma gritaria só. Cadeiras de praia na calçada colorem a noite. O cheiro gostoso do jantar avisa que a brincadeira está chegando ao fim. Bá começa a por a mesa. Não quero jantar não. Mas o cheiro tá bom demais. Mas não quero parar. Tô suando já. Vou ter que tomar outro banho. Que se dane. Corre, pega a bandeira, pega o ladrão, devolve o chinelo que minha mãe vai brigar, não chuta a bola tão alto Jana! O vinil tá acabando. Poxa, Rita, me deixa ficar mais um pouquinho. Não para já não. Me deixa mais um minutinho em 82, vai…Não provoque é cor de rosa choque tá morrendo na vitrola…

Terça-feira já já chega pra me afastar um aninho a mais desse tempo pra onde Rita me arrastou. Há quem diga que saudade é uma coisa que dá e passa. Mentira. A minha fica. E por mais que o disco acabe e que a Rita se despeça, não deixo a saudade ir embora. Valeu Rita, pelo fim de tarde especial. Agora tá na hora de fechar as portas e encontrar as crianças. As minhas crianças, que daqui a pouco tá na hora de sentir saudade também.

 

 

 

Post Anterior

Kubo

Próximo Post

Tem um peludo pra chamar de seu.

Comentários

  1. Nídia Blanco Villela
    12 de maio de 2017 at 19:16 — Responder

    Muito emocionada termino de ler mais um de seus tantos e belos textos. Voltei no tempo. Lembrei das sextas-feiras e senti saudade. Saudade de tudo e de todos. Dos seus amiguinhos sinceros e pontuais e também dos cachorros que entravam nas brincadeiras. Que coisa mais linda, menina! Como você consegue colocar em palavras a nossa história? Que lindo! Parabéns, amor nosso! Muitos beijos.

  2. Rosangela
    12 de maio de 2017 at 19:54 — Responder

    Maravilhoso texto…a delicadeza como voce retrata, me fez fazer parte daquela rua de Cascadura. Parabéns!

  3. 13 de maio de 2017 at 09:57 — Responder

    Karin , mais uma vez , você tocou bem no fundo de meus sentimentos ,minhas lembranças . Vi -me e senti -me na sua história .Meus aplausos , parabéns !

    • 13 de maio de 2017 at 17:41 — Responder

      Lourdinha, ouvir isso de você é presente pra mim. Muito obrigada! <3

  4. 14 de maio de 2017 at 00:32 — Responder

    Sem palavras…emocionada,Voltei no tempo…Brincadeiras de crianças,na calçada.Bola,queimada…
    Como você nos faz bem,Karin Scarpa…
    as crianças,hoje não tem nada disso…Não tem amigos.
    Parabéns.Lindo texto.
    Esperando o próximo.Obrigada ..Rita Lee.

    • 15 de maio de 2017 at 07:13 — Responder

      Rita tem esse poder, né? Também amei poder voltar um pouquinho para aquele tempo livre e feliz. Te amo.

  5. Maria Pilar Blaco
    21 de maio de 2017 at 15:10 — Responder

    Lindo Prima…. só posso acrescentar …. ” que saudosismo gostoso”….e um toque de melancolia…. “éramos felizes e não sabíamos”….
    Bjs
    P

Deixe seu comentário aqui.