Copacabana

Segunda-feira feliz

Segunda-feira feliz.

– Você conhece a história da estrela do mar?

A segunda-feira amanheceu quente no Rio, como de costume. Depois de levar os pequenos (nem tanto) na escola e antes de começar a trabalhar dei uma fugida para o melhor parapeito do bairro. O calçadão de Copa acorda cedo. Todos serpenteiam pelas pedras portuguesas margeando o Oceano. Uns mais rápidos do que outros. Uns mais assíduos do que outros. Uns turistas. Uns boêmios. E eu. Corro cedinho para o dia render. Faz parte da rotina.

Já havia terminado minha corrida e estava alongando quando presenciei uma cena de cinema. De filme iraniano, talvez. Daqueles que usam nossos olhos como porta de entrada do coração, sem atalhos ou desvios. Não havia reparado no banco ao meu lado. Nele, estava deitada uma moça. De rua. Dormindo. Eu não notei. Me incomodei com isso. O não notar é incorporar algo à normalidade. Tornou-se normal, aqui no Rio, gente que tem a rua como casa e os bancos de praça como camas. E a gente vai levando. Até que alguém nos faz acordar desse torpor pós-moderno. Já terminava de me alongar quando uma senhora se aproximou lentamente do banco e com um saco de lixo preto cobriu a moça que dormia. O gesto foi tão carinhoso, tão suave, tão delicado que por um instante o banco virou cama, o calçadão quarto e o mar o melhor quintal. A moça acordou atordoada e ameaçou se levantar. A senhora, com um olhar de avó, ajeitou melhor a coberta improvisada fazendo com que a moça voltasse ao soninho da manhã. A senhora foi se afastando aos poucos. Quase sem dar as costas para a moça. Quase como deixamos o quarto de nossos pequenos no meio da noite. Sempre olhando para eles. Velando por eles. Com passos miúdos, mas firmes, se afastou e desceu logo à frente, na área dos banheiros subterrâneos.

A essa altura eu já nem lembrava mais o que eu fazia ali. Esperei alguns instantes para ver se aquela avó cuidadosa retornava a superfície, mas como ela não o fez resolvi descer e procurá-la. Achei. Antes de qualquer apresentação fui logo dizendo:

-Só não lhe dou um abraço apertado agora porque estou completamente suada.

Ela me olhou intrigada. Quis saber por que mereceria um abraço aquela hora da manhã de uma desconhecida que pingava suor.

-A senhora foi tão delicada, tão bonita, tão doce com uma desconhecida que sequer lhe viu… Eu tinha que vir lhe agradecer por abrir minha semana me dando esperança para encarar o mundo tão sombrio que estamos vivendo.

Ela riu e disse que seu marido trabalha no quiosque, que tinha visto aquela moça dormindo toda vulnerável e ficou vigiando com medo de que alguém fizesse mal a ela. A senhora então tentou cobrir a moça com o que tinha ao alcance das mãos.

-Queria cobrir o bum bum dela para que ninguém ficasse olhando. A gente que é mulher sabe a dor da outra, né?

Sorri concordando e ela continuou.

-Você conhece a história da estrela do mar? Não? Todos os dias numa praia do nordeste, a maré baixava e deixava na areia várias estrelas do mar. Prontas para morrer. Um pescador ficava horas tentando recuperar o máximo possível. Catando uma por uma e arremessando-as de volta ao oceano. Um pintor, que havia viajado até ali para retratar a beleza do litoral brasileiro ficou intrigado com o gesto do pescador. Não se conteve e aproximando-se do senhor perguntou por que ele fazia isso se nunca ia conseguir salvar todas, se era “normal” o destino dessas estrelas do mar. O pescador respondeu que poderia não conseguir salvar todas, mas todas que ele conseguisse salvar já fariam a diferença para ele. Na tarde seguinte o pintor voltou a praia, arregaçou as calças e juntou-se ao pescador na tarefa de dar mais um dia de vida àquelas estrelas do mar.

-Dois juntos já salvam o dobro, né? – Completei.

-Isso.  -E, segurando a minha mão, disse: estamos juntas, minha amiga. Juntas ajudamos mais.

É lógico que ignoramos o suor e terminamos nos braços uma da outra. Voltei ao calçadão me sentindo tão poderosa que foi impossível disfarçar o sorriso no rosto. E antes de seguir para casa fui dar uma conferida na moça que dormia a poucos passos dali. O saco plástico havia se desprendido e jazia a seus pés. Lembrei do pescador e fui lá fazer o que o pintor teria feito. Ela deu uma acordada e me entregou um sorriso sonolento enquanto eu a cobria. Deixei o quarto dela e fui embora feliz por ter quebrado mais uma “normalidade” do dia a dia atual.

 

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Comentários

  1. Marcia Cea
    7 de março de 2016 at 11:52 — Responder

    Que lindo gesto, texto e vivência, Karin! Feliz Segunda para todos!

    • 7 de março de 2016 at 20:52 — Responder

      Feliz segunda, Márcia! Estava sentindo sua falta por aqui. Muito feliz que tenha voltado. Beijos!

  2. Anne Calil
    7 de março de 2016 at 12:31 — Responder

    Fantastico, tudo. A graça de presenciar um ato tão humano e divino, a sua atitude diante dessa visão tão nobre de amor e agora a minha semana também. Como vc sabe tb passo por esse espaço quase todo dia e muito mais julgo do que amo. Espero repensar meus pensamentos.
    UM BEIJO.

    • 7 de março de 2016 at 20:59 — Responder

      Que lindo, Anne. Eu sei. Nosso parapeito é lindo e tem muita coisa bonita acontecendo por ali. Outro dia vi duas senhoras que caminhavam, parando para catar um saco de biscoitos que estava jogado no meio do calçadão. Com essas eu não parei para falar. Erro meu. Mas tem muita coisa gostosa de se ver. é que nosso olhar tá condicionado. Vamos aos poucos “descondicioná-lo”. Muitos beijos!!!

  3. Dora Martini
    7 de março de 2016 at 15:39 — Responder

    você é incrível, Karin!!! bjs

    • 7 de março de 2016 at 21:03 — Responder

      Ah Dora, que bom que apareceu. Estava com saudades de você! Outro dia estava lendo “Brasil, País do Futuro” e não pude deixar de lembrar de você. Como vai aquela casa linda de Zweig? Bjs

      • Dora Martini
        10 de março de 2016 at 09:59 — Responder

        saudades também, minha amiga! A CSZ caminha, na esperança de novos editais para deslanchar nossa promissora programação. Vamos aguardar com o otimismo tipo KARIN (!!!!) tempos melhores. Tenho certeza que estão muito próximos. bj grande para você e sua família maravilhosa!

        • 16 de março de 2016 at 08:05 — Responder

          Tempos melhores virão. Assim a gente espera. Um beijo enorme também e até breve.

  4. 8 de março de 2016 at 10:59 — Responder

    …Oi Prima, lindo de sua parte partilhar essa vivência com todos….Seja como for, temos que tentar ser melhores, temos que cuidar, plantar amor, afeto, generosidade…..A vida devolve em dobro…não é???
    Beijos
    P

    • 9 de março de 2016 at 15:33 — Responder

      É isso aí. Devolve mesmo. E a gente vai repartindo e recebendo e repartindo… Bjs!!!

  5. Liana
    8 de março de 2016 at 19:13 — Responder

    Como sempre, adorei sua crônica. Bjs

  6. Rafaela Lima
    16 de março de 2016 at 10:00 — Responder

    Maravilhoso! Essa analogia da casa com a rua e da cama com o banco é sensacional! Gosto demais do jeito com que você escreve. A leitura vai fluindo leve, gostosa. Parabéns! Estava mesmpo com saudade.

    • 16 de março de 2016 at 10:15 — Responder

      Obrigada Rafaela. A gente vai fluindo junto. Bj

  7. Nídia Blanco Villela
    16 de março de 2016 at 10:02 — Responder

    Comovente, filha! Demais! Mais lindo que a tua escrita é o sentimento que você traduz em palavras. Difícil não se comover. Te amo!

    • 16 de março de 2016 at 10:16 — Responder

      E neste dia você estava por perto, mãe. tomamos água de coco juntas. Também te amo. Muito.

  8. 18 de março de 2016 at 11:09 — Responder

    SEU MARAVILHOSO TEXTO ME DEIXOU COM OS OLHOS CHEIOS D’ÁGUA . PARABÉNS !

    • 19 de março de 2016 at 16:43 — Responder

      Ah Virgínia, foi um desses momentos que a gente não quer esquecer, sabe? A rua é um espaço de encontros e que deveríamos valorizar mais isso. Ali a gente aprende tanta coisa… Obrigada pelo carinho.

      • 19 de março de 2016 at 18:51 — Responder

        Concordo com você ! Abraços fraternos !

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