Copacabana

Era uma vez…Duas locadoras incríveis em Copa.

Era uma vez…Duas locadoras incríveis em Copa.

Em outubro do ano passado eu havia escrito o post Duas locadoras incríveis em Copa e agora (nunca pensei que fosse escrever isso aqui), me vejo no dever de recontar essa história visto que meus dois amores de Copa se foram. Triste, muito triste. Parece um complô, mas na verdade é apenas o sinal dos tempos. Há quem culpe a crise, afinal tudo agora se torna culpa dessa infeliz. Outro dia mesmo, no metrô, ouvi duas senhoras reclamando que a praia lotada no domingo era culpa da danada. Ri sozinha me lembrando de quantas praias lotadas aos domingos eu peguei ao longo de minha vida inteira. Bom, mas de certa forma, o fato de minhas locadoras queridas encerrarem suas atividades é sim, culpa da crise. Da crise dos tempos.

Antigamente todo mundo via filme em VHS e ouvia música em vinil. Veio a crise dos tempos e o DVD ocupou as prateleiras das locadoras e os CDs das lojas de música. Hoje, infelizmente (pra mim pelo menos), as locadoras foram perdendo o seu lugar na história. Ou ganhando. Depende do ponto de vista. Ficaram na memória. Afinal, com esses infinitos canais a cabo, locadoras virtuais e a poderosa Netflix, ninguém mais quer sair de casa para pegar um filminho. Uma pena porque nesses templos de entretenimento a vida era bem mais legal do que comandar um controle remoto do sofá de casa. O filme começava a ser visto na hora em que a gente saía de casa para escolhê-lo. Na locadora ficávamos fascinados com todos aqueles títulos se oferecendo para irem embora conosco. Alguns me atraíam pelo título, outros pela capa. Era um lugar de perdição para mim. Me enveredava pelas categorias: nacionais, franceses, comédia, aventura, drama, romance, argentinos e não queria mais ir embora. Sozinha. Ficava doida para levar um comigo, ou dois ou pegar algum pacote promocional tipo “leve quatro e só devolva na terça” e levar uma família inteira. Rafa me acompanhava. Bom, nem sempre nas minhas escolhas. Se estivéssemos na Gvídeo, o Francisco já perguntava: é pra vc ver sozinha, com o Rafa ou com as crianças? Tínhamos categorias diferentes para o Francisco. Depois da indicação e do papo que se seguia íamos para casa ansiando pela pipoca e pelo feedback que daríamos no momento da devolução.

Hoje me sinto meio órfã. Minhas referências fecharam as portas para nunca mais abrir. A Gvídeo foi a primeira. Quando li a fatídica placa informando que o acervo estaria todo a venda, confesso que como boa chorona e nostálgica que sou, não consegui entrar na loja. A garganta deu um nó. As lágrimas correram velozes e me levaram direto para casa. Rafa como é mais durão, deu um sorriso amarelo e comentou: “é… mais uma etapa que deixamos para trás. As crianças não vão ter mais essa referência”. Só serviu para aumentar o volume de água que descia pelo meu rosto. Uma semana depois voltamos para escolher algumas preciosidades para levar para casa. Outro choque. Tanta gente que nem frequentava a loja, que não tinha história ali, pilhando aquelas estantes. Pegavam sem carinho algum, sem cuidado, sem reverência. Enchiam sacos e mais sacos acumulando títulos para revender. Fiquei muito enfezada. Eu me sentia parte daquilo. Minha história passava por ali. E agora esses negociantes baratos levavam parte de minhas referências com eles. Sem qualquer cerimônia. Fui embora de mãos vazias. Não consegui competir. Voltei mais tarde, com o Rafa sempre me escoltando, não sei se com medo de que eu desabasse ou de que eu desabasse toda a minha ira sobre os por mim intitulados “malfeitores”.

Quando soube do fechamento da Paradise essa pilhagem já havia acontecido por lá. O cartaz também estava afixado na porta de entrada avisando do encerramento das atividades e da venda do acervo. Nós é que vimos tarde. A minha Paradise já estava com as veias abertas, desfigurada, violentada. Márcio, que nos ajudava por lá, mantinha-se forte. Disse que havia se preparado bastante para aquele momento, mas que quando aconteceu de verdade, e aqueles compradores vorazes começaram a devorar as prateleiras, sentiu uma dor indescritível. Márcio estava ali há quase 1/4 de século. Era dele a função de cuidar daquele acervo. E sempre o fez com imenso carinho. Agora via-os partir amontoados em sacolas para terem sabe Deus que destino. Senti horrores, mas tenho certeza de que Márcio sentiu infinitamente mais. Ver aquele fabuloso acervo antigo da Paradise desmembrado, para mim, era como uma depredação de patrimônio histórico.

Demorei a escrever sobre isso. Aconteceu no mês passado. Ainda não estava pronta. Hoje, passo na porta das duas e me deparo com as grades arriadas, sem vida, sem vídeo, sem voz. Entraram para a história. A minha. Agora é só saudade. E essa dói pra caramba.

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Comentários

  1. Rafaela Lima
    18 de fevereiro de 2016 at 10:50 — Responder

    Não fui frequentadora dessas duas incríveis locadoras, Karin, uma pena, mas fiquei tocada demais. Fui literalmente contaminada pelos sentimentos de dor, saudade, zelo e muito carinho, que fui vivenciando a medida que ia avançando na leitura. Tudo tão contagiante, que ao terminar, não consegui conter as lágrimas que timidamente rolavam pelo meu rosto. Estava com saudade dos seus textos. obrigada e Parabéns!

    • 20 de fevereiro de 2016 at 10:22 — Responder

      Ah Rafaela, choramos juntas então. Eram lugares mágicos. Obrigada pelo seu carinho. Também estava com saudades de passar por aqui. Um beijo grande!

  2. 20 de fevereiro de 2016 at 14:30 — Responder

    Prima…(como pode ver estou tentando por em dia minha leitura… virtual… ahahah)….

    Bom, lendo o seu texto… bateu uma saudade…..mas fez pensar.. como o mundo gira……….. (acho que você dever ser uns 10 ou 15 anos mais jovem do que eu).. mas … fico tentando me lembrar de quantas tarefas, obrigações …e .. coisas boas e divertidas ficaram no passado..
    Há alguns dias, uma conhecida postou no facebook dela uma foto de uma geladeira , marca-….”Frigidaire” ??? e uma enceradeira “Arno”…. muito antigas (!!!) ….. EU tenho, ainda, uma enceradeira Arno em casa…igualzinha a da foto…. (é uma reliquia..)….hoje nem precisamos mais de enceradeira…. com esses pisos laminados…. Mas o piso da casa da minha mãe (tacos)…bem encerado e lustrado ..que ficava muitooooo ….mais bonito ..a isso ficava….. Perdemos algumas coisas e ganhamos outras……È o mundo girando…..
    Bjs
    P

    • 21 de fevereiro de 2016 at 17:57 — Responder

      Eu sei que os ganhos são muitos com essa “crise dos tempos”, mas sou uma nostálgica incorrigível. Vc falou de enceradeira e uma geladeira, né? Pois é, eu tenho uma geladeira da década de 50 aqui em casa. Funcionando! General Eletric! Agora ela está vermelha! Linda linda! Vc vai amar! Bjs

  3. 21 de fevereiro de 2016 at 17:39 — Responder

    ótimo post !

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