Cabeça de Mãe

De repente olimpíada

De repente Olimpíada.

Sou mãe há muito tempo e carioca há mais tempo ainda. Amo minha cidade desde que me entendo por gente. Nunca me imaginei morando fora daqui e quando isso aconteceu, por duas vezes, só pensava em como seria quando eu voltasse pra casa. Gosto de tudo. Da geografia, do clima, das pessoas. Gostava da vida suburbana quando morei por lá e gosto da vida perto do mar. Sabia que o Rio era o meu lugar. Eu tinha essa sensação de pertencimento e orgulho. Quando mais jovem desfrutava de tudo o que a cidade podia oferecer. Então cresci e vi que ela estava me oferecendo muito pouco. Ela me oferecia escolas sucateadas, professores desvalorizados, hospitais mal equipados, ruas mal cuidadas, sujas e inseguras. Aí me tornei mãe e o meu Rio começou a perder o encanto. Porque depois que a gente se torna mãe, a gente começa a ver tudo de outra forma, tudo passa a girar em torno dos filhos. A gente passa a olhar pra frente, bem pra frente. O hoje se torna pouco porque queremos a garantia do amanhã, para eles.

E de repente é Olimpíada, no meu Rio.

Quando o Rio ganhou essa oportunidade de sediar os jogos olímpicos, me senti dividida. Ao mesmo tempo que pensava “Não vai dar certo. Como vamos mostrar essa falta de cuidado para o mundo? Como vamos receber visitas numa casa bagunçada?”, também tinha esperanças de que poderíamos, num esforço hercúleo e coletivo, fazer uma dessas transformações radicais e ser de fato a cidade maravilhosa.

E de repente é Olimpíada, no meu Rio.

Infelizmente o prefeito da nossa cidade, o atual e muitos dos anteriores (se não todos), nunca cuidaram do meu Rio como mães zelosas cuidam dos seus filhos. E é como mãe que me entristeço com esse evento na minha cidade.

Quando me casei, decidi que não íamos engravidar logo. Casamento não é fácil não. São duas pessoas tentando dividir espaços, compartilhar conquistas, respeitar vontades. Por isso é muito importante a gente amar nosso companheiro, porque estaremos dividindo com ele sonhos, conquistas e realidade (talvez essa seja a parte mais difícil de se dividir). Esperamos 5 anos. Curtimos cada dia desses 5 anos como adultos, jovens e livres (ou quase). Quando achamos que estava na hora, chamamos o Pedro. Surpreendentemente nos tornamos pais. E gostamos. Sentimos segurança e ousamos. Chamamos a Ana também. Finalmente nos tornamos inteiros, completos. A casa ganhou mais um morador e os espaços foram imediatamente redistribuídos. O quarto do Pedro virou dos dois. A sala ganhou mais brinquedos pelo chão e mais um prato na mesa virou a decoração perfeita. Nossa casa sempre foi nossa. Enquanto eram bebês nós pensávamos o espaço em função deles, quando foram crescendo foram participando das decisões, escolhas, sucessos ou fracassos. Eles são membros ativos desse espaço. Não há uma peça comprada para a casa que eles não tenham participado da escolha, gostando ou não. É claro que dá mais trabalho, mas é assim que tem que ser porque todos moramos aqui. Todos usamos o espaço. Cada um defende seu ponto de vista, dá palpite, participa. Votamos para o destino das próximas férias, para o filme do final de semana, para a pizza de sexta. E mesmo quando perdemos, ganhamos, pois nos sentimos seguros de que nada nem ninguém sairá prejudicado. Muito menos terá seu direito subtraído. Na prática, se o Pedro tem prova no dia seguinte, Ana nem cogita fazer festinha na noite anterior. E vice versa. Os integrantes da casa são prioridade na casa, sempre.

E de repente é Olimpíada.

Hoje, como mãe há um bom tempo, não sinto esse cuidado com o Rio. Nosso prefeito não pensa na rotina da casa e depois em preparar a festa. Não se incomoda em inverter a ordem dos fatores, que neste caso, altera consideravelmente o produto. Ele pensa, planeja e executa a festa independentemente da vontade, do desejo ou da rotina dos moradores. A cidade, que vai além da zona sul, está feia, mal cuidada, violenta. O centro da cidade foi completamente recortado para passar um meio de transporte puramente turístico, que pode até ser lindo mas não facilitou em nada a vida daquela mãe que mora em Realengo e trabalha em Ipanema e que quer chegar logo em casa para saber como foi o dia dos seus pequenos. A construção da ciclovia mais linda do mundo custou milhões e nunca foi segura. E nem estou falando do fato de sua construção irresponsável não ter suportado uma ressaca e matado dois cidadãos, mas de seu desenho mesmo. É um corredor polonês, com laterais de tela facilmente corroídas pela maresia e/ou destruídas pela ação humana, com postes de luz no meio do caminho, fazendo com que ciclistas e pedestres enfrentem uma aventura diária ao atravessá-la. A cidade está cheia de policiais, mas nem de longe menos violenta. A população se espreme no transporte coletivo que foi pensado pelas empresas de ônibus e adequado ao cidadão (novamente ordem invertida), se equilibra entre a violência do bandido e a da polícia, se educa apesar das escolas e tenta cuidar da saúde do seu filho apesar dos hospitais públicos.

E de repente é Olimpíada.

E tudo pode dar certo. O gringo pode se encantar com o carioca, que é um encanto mesmo, achar que a festa foi perfeita e voltar para casa feliz da vida. O morador pode achar que a cidade ficou linda e que segurança, saúde e educação não vem ao caso numa festa dessas proporções. E o prefeito, bem o prefeito pode até voltar como governador nas próximas eleições. E as pessoas podem continuar achando política uma coisa chata, educação aquilo que se ensina na escola, saúde aquilo que seu plano pode pagar e que a violência é fruto do acaso ou da safadeza dos outros que podiam muito bem estar estudando, trabalhando e sendo felizes em suas casas confortáveis, suas escolas bem aparelhadas com professores super valorizados, tratados em hospitais onde não faltam gaze nem elétro e muito menos médico comprometido com a saúde, indo e voltando do trabalho de bicicleta ou em transportes públicos seguros, rápidos e baratos, mas decidiram ser maus só por diversão.

Bom, enquanto carioca, mãe e cidadã, vou continuar defendendo que primeiro a gente cuida da casa e dos nossos filhos para depois pensar em receber visitas, que a gente só pode considerar uma festa bem sucedida quando todos, anfitriões e convidados, se divertem com ela e que todos os moradores, como filhos que são dessa cidade, deveriam ter o direito de participar de sua construção e receber o que é melhor para eles, não só em dia de festa. Mas como moradora que não vai poder viajar durante o período dos jogos olímpicos e uma otimista inveterada, confesso que vou tentar me divertir, mas sem perder a mania de mostrar para os meus pequenos como poderia ser melhor para todos se a gente não pensasse só em alguns.

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Comentários

  1. Maria de Lourdes Duarte
    5 de agosto de 2016 at 11:09 — Responder

    Karin ,, você colocou no papel o meu pensamento .Vejo a situação da mesma maneira que você .Casa deve ser limpa e organizada para quem mora nela ; a visita pode chegar a qualquer hora . Grande abraço.Lourdes

    • 7 de agosto de 2016 at 21:36 — Responder

      Pois é. Os de casa tem que estar bem tratados para a gente pensar em dar uma festa. E a festa tem que ser para todos nós, os de casa e ou visitantes, né? Bjs

    • 14 de agosto de 2016 at 20:36 — Responder

      É por aí , Lourdes !

  2. 6 de agosto de 2016 at 15:15 — Responder

    Você sempre falando o que gostaria de ter dito.
    Perfeita esta crônica.Parabéns

    • 7 de agosto de 2016 at 21:37 — Responder

      Pensamos de forma bem parecida, né dindinha? Bj enorme.

  3. 6 de agosto de 2016 at 16:24 — Responder

    …..é prima… concordo com você 100%….temos tantas cidades maravilhosas , como o RJ, espalhadas pelo nosso Brasil afora, Recife, Fortaleza, São Luiz, Salvador, Ouro Preto, Sabara, Diamantina, Tiradentes……etc…..totalmente abandonados….(pessoas e patrimônio). Não adianta criticar cidades ou lugares….. esses são abençoados por natureza….nosso problema serio é de governança ..é isso que precisamos melhorar e muito…… o resto vem normalmente….Mas enquanto não acontece…..vai aproveitando a cidade maravilhosa….que inveja….(branca)….
    Beijos
    P

    • 7 de agosto de 2016 at 21:39 — Responder

      Vou aproveitando, mas não precisa ter inveja não, é só aparecer. Vem dar uma olhadinha nos jogos e no que eles trouxeram para a cidade. Bjs

  4. 14 de agosto de 2016 at 20:39 — Responder

    Concordo com você ” Ipsis litteris” ! Mas , infelizmente nossos governantes e políticos não pensam desa forma sadia.

  5. 15 de agosto de 2016 at 18:12 — Responder

    Votarei em você !

    • 15 de agosto de 2016 at 19:11 — Responder

      Ai Virginia, acho que eu não sobreviveria a nossos políticos ou eles a mim! rsrsrsrs
      Muitos beijos!!!

      • 16 de agosto de 2016 at 06:14 — Responder

        hahaha…Essa é a minha opinião também ! Bela e amorosa terça-feira !

        • 16 de agosto de 2016 at 13:11 — Responder

          Para nós! Beijos!

          • 17 de agosto de 2016 at 17:47

            Beijos de luz, paz e amor no coração !

  6. Liana Montero Valdez Placenti
    23 de agosto de 2016 at 14:17 — Responder

    Como já falaram, acima, você disse tudo o que penso das Olimpíadas do RJ. Imagina que querem destruir a pista oval, onde teve corrida de bike. Um absurdo! Infelizmente, os governantes, em sua maioria, não tem amor pelo Brasil. Cada dia que passa mais pessoas passam fome, não tem direito à saúde, etc. Não tem o mínimo para poder viver com dignidade. É triste mesmo.
    A equipe que fez a abertura e o fechamento das Olimpíadas está de parabéns, pois foi muito bonito. Os atletas, em sua maioria, lutaram muito para chegar onde todo atleta quer chegar: no pódio. Isso foi bonito. Mas se o Brasil desse incentivo para nossas crianças, muito mais atletas brasileiros receberiam medalhas. A maioria das escolas nem quadra de esporte tem…Nossos atletas são muito guerreiros e mesmo com tudo para não dar certo dão a volta por cima e conseguem.
    Beijos em todos de casa e um beijão saudoso
    Liana

    • 27 de agosto de 2016 at 21:13 — Responder

      Nem me fale, Liana. São heróis mesmo. Principalmente os em patrocínio. E agora é a vez das Paralimpíadas, onde os atletas são mais do que guerreiros, são heróis. Saudade!

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