Copacabana

Copacabana, meu subúrbio particular

Copacabana, meu subúrbio particular…

Nem sempre morei em Copa. Nasci no subúrbio carioca. Morei numa rua encantada onde o calor não incomodava, o frio não existia, a fome passava longe e as manhãs tinham cheiro de jasmim. Tive amigos tão incríveis que até hoje me pergunto se realmente existiram.
Tive cachorro. Mais de um. Eram meus, mas quem cuidava era meu pai. Até hoje ele me lembra disso. Tinha uma bike que jurava ser um ônibus e uma goiabeira que fazia as vezes de avião. Piscina, só no verão. Conhecia os vizinhos pelo nome. E pelo nome também conhecia os donos dos bares das esquinas. Sempre me pareceram mais bares que esquinas. Conhecia os feirantes, a moça que vendia Yakult no portão, o vassoureiro, os rapazes que vendiam refrigerante sem marca na kombi amassada. Ah, o açougueiro também. E todos me conheciam de volta. Parecia que meu quintal não tinha fim. E os dias também não.

Deixei meu bairro, minha casa, minha vida de criança para sempre na memória. Vim morar em Copa. Já era moça. Tinha 20 anos. Tinha um namorado e uma vaga na universidade. Já não brincava mais na rua.

Me mudei para um bairro que desperta o amor ou o ódio nas pessoas, nunca a indiferença. Eu amo. As pessoas se falam nas ruas. Às vezes até demais. A gente conhece o dono do bar e da mercearia, a galera da locadora, o garçom do restaurante. Ah, o cara da banca de jornal também. O vassoureiro não conheço, mas ainda o escuto. Quem sabe um dia me animo e desço pra trocar um dedo de prosa com ele…

Meus filhos, minhas crianças de apartamento, já nasceram aqui. Na República Independente de Copacabana, como disse um antigo morador e apaixonado pelo bairro. Nasceram num lugar que é a personificação da mistura. Copa não tem raça pura. Amém. Por aqui tem gente rica, tem artista, tem diarista, tem nordestino, gaúcho e paulista. Tem mineiro, professor e surfista. Tem macumba na esquina. Tem bar lotado em dia de futebol, cerveja gelada, pão na chapa, carne na grelha. Tem porteiro em time de morador na pelada da praia. Em Copa tem doutor, prostituta, skatista e pastor. Tem gringo que acha que fala português. Tem muçulmano e judeu. Católico nem se fala. Tem até santa que deu nome ao bairro. Tem trabalhador, aposentado, motorista. Tem atleta, sambista, tem mecânico e jornalista. Tem gente que só anda de bike e tem gente que ainda não aprendeu a andar. Em Copa tem música, tem cheiro de maresia, tem festa na areia e mar gelado. Em Copa tem turista. Ah, um montão. Tem ladrão também. Infelizmente. E tem tanta coisa junta e tanta coisa que junta você só acha em Copa, que dá até pra escrever um livro, fazer um filme ou contar histórias.

Copacabana é aventura em dia de trabalho, é prazer conturbado, é confusão animada. É deleite, é pecado, é redenção. E se a vizinha Ipanema tem uma garota, Copa tem sangue real. Já dizia o maestro, é a princesa de um mar que ele sempre há de amar. E eu também.

Puxe uma cadeira. Sinta-se em casa. Venha pra Copa, o meu subúrbio particular.

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Comentários

  1. Elaine Cavati
    10 de março de 2015 at 11:02 — Responder

    Amei!! Eu lembro bem dessa piscina da infância.. Quase me afoguei lá! Ainda bem q a Norma me salvou.. kkkkk

  2. Marcia Cea
    10 de março de 2015 at 11:03 — Responder

    Karin, querida, tive a oportunidade de conhecer sua casa na rua encantada e vê-la ainda menina…seu irmão ainda não tinha nascido…realmente era uma casa muito gostosa e cuidada pelos seus adoráveis pais…
    Parabéns pelo blog, estou me deliciando, parabéns pela iniciativa!!
    Um beijo, Marcia Céa

    • 10 de março de 2015 at 11:31 — Responder

      Puxa Márcia, que legal! Muito bom saber disso. E que você está gostando do blog também. Puxe uma cadeira e fique conosco. Beijos!

  3. 10 de março de 2015 at 12:01 — Responder

    E a princesinha do mar tem também uma professora das melhores ou uma fotógrafa com olhar inteligente chamada Karin . Parabéns sempre!

    • 10 de março de 2015 at 15:11 — Responder

      Ah… Sempre um gentleman! Saudade dos nossos papos, Betho! Bjs

  4. tatiana bertolo
    10 de março de 2015 at 12:38 — Responder

    Me encanto leer esto! I miss COPA!!! “Tem gringo que acha que fala português”- jaja eso soy yo!!!

    • 10 de março de 2015 at 15:14 — Responder

      Ahh Tati! Você FALA português! E com um sotaque lindo! Volte logo! Bj

  5. 10 de março de 2015 at 15:04 — Responder

    Que lindo! uma carta de amor ao bairro. Como diz o Fausto Fawcett, se a humanidade tem raio-x, Copacabana é a fratura exposta.

    • 10 de março de 2015 at 15:18 — Responder

      Que bom que gostou Beta, afinal Copa é bem sua também, né? Bjs

  6. 10 de março de 2015 at 15:42 — Responder

    Lindo Karin…. sobre COPA …concordamos em genero, grau e número —-:-)…. você esqueceu de mencionar que tem uma padaria bem pertinho onde tem um pão delicioso e fresquinho toda hora…..hummmmmm…
    imperdível….(coisa difícil em sampa)
    Beijos

    • 10 de março de 2015 at 18:23 — Responder

      Verdade, Pilar. Verdade. rsrsrsrs

  7. 10 de março de 2015 at 15:51 — Responder

    Lendo seu texto ,senti-me visitando a sua rua encantada do subúrbio.Parabéns!

    • 10 de março de 2015 at 18:23 — Responder

      Que bom Lourdes. Adorei. Ela era realmente deliciosa. Bjs

  8. Rafa
    10 de março de 2015 at 19:12 — Responder

    Lindo demais, Sou suspeito. Vale uma música. Espetacular. Copa não poderia ser descrita melhoe por ninguém.

    • 11 de março de 2015 at 08:01 — Responder

      Suspeito e parceiro no crime. Te amo.

  9. Liana
    11 de março de 2015 at 12:52 — Responder

    Maravilha. Também amo Copacabana. Bjs saudosos.

  10. 11 de março de 2015 at 17:37 — Responder

    Soube do seu blog por uma amiga que te segue e resolvi visitar. Entrei, li e amei. Quando você diz que tem porteiro em time de praia de morador é a pura verdade. Essa mistura que você tão bem descreve, que passa por artista, prostituta, gente rica, pastor, etc. é sensacional. Isso é Copacabana! E principalmente por isso é maravilhosa! A comparação que você faz com a vizinha Ipanema, usando nosso poeta, é incrível. Parabéns!

    • 11 de março de 2015 at 18:00 — Responder

      Puxa, que bom que gostou. Obrigada! Puxe uma cadeira e sinta-se em casa, Rafaela!

  11. 12 de março de 2015 at 12:21 — Responder

    Gostei de verdade! Já puxei a cadeira e também já estou me sentindo em casa. Valeu! Obrigada.

  12. Lucia Céa
    14 de março de 2015 at 00:03 — Responder

    como viajo junto…na rua pacata do subúrbio,no bairro energético de Copacabana!Sem mais,falou muito bem sobre a mistura de raças,de pessoas…Amei tudo.Parabéns!

  13. Maria Izabel de Mattos Correa ou Izabel de Mattos
    14 de março de 2015 at 14:20 — Responder

    Amei o texto. Com jeitinho pode até virar um poema

    • 15 de março de 2015 at 01:54 — Responder

      Obrigada Maria Izabel. Seja bem vinda por aqui.

  14. 29 de maio de 2015 at 12:02 — Responder

    Ahhhh…. também vim de um bairro que tinha criança na rua, jogando queimado, pipa…. em Copa isso não existe.
    Doce de São Cosme e Damião, em Copa as pessoas tem medo de perguntar.
    E o cheiro do churrasco, só na frente da churrascaria.
    Vim de Olaria, amo tanto a praticidade de Copa, mas como você me fez sentir saudade do que ficou lá longe.

    • 2 de junho de 2015 at 07:35 — Responder

      Ai nem me fale da correria deliciosa atrás dos doces de São Cosme e Damião… A gente enchia bacias inteiras e ainda se dava ao luxo de separar os doces por tipo. Toda a família curtia. Hoje, minhas crianças de apartamento, ainda recebem de sua mãe que nunca se esquece deles. E aí eu dou aquela voltinha no tempo…Um beijo!

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