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Ilha de Páscoa. Uma semana no umbigo do mundo!

Ilha de Páscoa. Uma semana no umbigo do mundo!

Pois é… onde exatamente ficava esse tal de umbigo do mundo era uma pergunta que não queria calar aqui em casa. Descobrimos que ficava no Chile e que também no Chile ficava o fim do mundo. Curioso o mundo quase todo ali, ou pelo menos do umbigo para baixo, naquele comprido pedaço de terra espremido entre os Andes e o Pacífico…

Para essa viagem mergulhei de cabeça nas dicas e mapas detalhados do Gleiber e do Sandro, do blog Andarilhos do Mundo. Esses caras são demais. O Chile para Crianças da Cinthia também foi muito útil, pois deu para se ter uma ideia de como um pequeno, no caso dela uma pequena, se comporta nesses lugares. Esses experientes viajantes do mundo nos proporcionaram dicas incríveis que nos serviram também para Santiago (depois faço outro post sobre essa charmosa cidade pela qual nos apaixonamos desde a aterrissagem). Depois de viajar pela tela do computador na viagem alheia, foi só montar o roteiro. E neste caso específico preparar a ceia. Natal em Páscoa seria único. Será que Papai Noel iria tão longe? Bom, fomos conferir.

Antes de fecharmos o ziper da última mala, colocamos um filme no vídeo. Isso mesmo, vídeo! Desencravamos o antigo aparelho de videocassete há muito aposentado e assistimos Rapa Nui. O filme era antigo, chuviscado e meio escuro, mas deu para eles terem uma ideia das dificuldades e perrengues que esse povo enfrentou nos primórdios da ilha. A cerimônia do homem pássaro então… Putz, o que era aquilo? Um povo guerreiro que não esquece suas origens. Que ainda hoje reproduz diariamente esse filme num dos hotéis da cidade e que apesar de estar oficialmente em território chileno estufa o peito para dizer que não perderam sua soberania.

O mapa do umbigo do mundo
O mapa do umbigo do mundo

Dezembro chegou e com ele a Páscoa. Depois de nove deliciosos dias em Santiago, embarcamos para a ilha mais distante do continente. Perdida no meio do Pacífico, há 3.500 km de Santiago, a meio caminho do Tahiti, a mais de 5 horas de vôo. Ficaríamos sete dias explorando e no oitavo descansaríamos. rsrsrs

Aterrissamos no simpático aeroporto Mataveri e fomos recebidos com os tradicionais colares de flores naturais para desespero doIlha de Páscoa_Chile Pedro que odeia cheiro de flor. Ana amou. Fez várias poses. Depois fomos espremidos no jipe da dona da pousada, entre malas, mochilas e flores. Pedro quase voltou para meu útero de tão colado em mim, fugindo desesperadamente das plantas que o perseguiam sem trégua. Ana ria. Chegamos na pousada que, como havíamos visto na internet, ficava de frente para o mar. Só não haviam mencionado que entre nosso chalé e o oceano havia um cemitério. Pois é, tinha um cemitério no meio do caminho… Bom, as crianças se amarraram. Até porque era diferente, alegre, decorado e iluminado com luzes azuis durante a noite. Só tivemos que prometer evitar as histórias macabras na hora de dormir. Distração favorita do pai deles.

Mal chegamos na pousada e nos livramos do jipe perfumado, depositamos as malas no quarto e pernas pra quem te quero! Hanga Roa, o centro urbano da ilha, nos aguardava. Começamos contornando a costa e matando a curiosidade sobre os místicos moais. Vimos vários! Enormes, imponentes, lindos. Nos sentamos a beira de um deles e admiramos o céu, o mar, tudo junto. Ilha de Páscoa_ChileCorremos nos gramados, posamos para fotos, imitamos as poses dos moais. Não resistimos e mergulhamos numa das piscinas naturais do Pacífico. A primeira vez a gente nunca esquece. Com o Pacífico na pele fomos percorrer as ruelas que costuram Hanga Roa. Com uma bandana nos cabelos para proteger do intenso vento que nunca para de soprar e jogo de cintura suficiente para driblar a gangue de cachorros de rua que aparecia a cada esquina, nos divertimos bastante naquele pacato centro urbano. Ana caminhava aos pulos, pois como tem medo de cachorro ela mal podia ver a sombra deles e já se atirava no primeiro colo presente. No final eu já andava de braços abertos esperando o arremesso daquela criança. Passamos na telefônica para avisar a civilização que estávamos bem. Não achamos livraria, mas supermercado pudemos visitar e aí ficamos meio preocupados. É que não havia variedade de produtos. Claro, há quase 4 mil quilômetros da costa o que podíamos esperar! Teríamos que improvisar para a ceia natalina. Por último, fomos a um lugar muito importante para quem ama registro como nós. Aos correios! É que lá eles carimbam o passaporte com o “visto” local: simpáticos moais. Mas, cuidado. Tudo fecha na hora do almoço. Até alguns restaurantes.

Ilha de Páscoa_ChileNo dia seguinte alugamos um carro, ou melhor, um jipe para nos levar aos quatro cantos daqueles 170 km2 de terras vulcânicas. Ficaríamos com ele pelo resto da semana. Assim teríamos mais mobilidade para explorar a Ilha e procurar o umbigo do mundo. Ali, sempre a bordo do nosso amigo 4X4 mergulhamos nas deliciosas águas de Anakena, uma praia linda, paradisíaca, com duas plataformas de moais, palmeiras, areia finíssima e mar azul. Bem à sombra das palmeiras, comemos deliciosas empanadas regadas com a sofrível cerveja da ilha: Mahina. Tínhamos que experimentar. Era uma produção local que foi descontinuada pelo encerramento das atividades da fábrica. Virou relíquia.

Ao longo daquela semana fizemos descobertas incríveis.

Exploramos as encostas do majestoso vulcão Rano Raraku e sua impressionante fábrica de moais. Um passeio incrível. Uma bela caminhada cheia de aventuras, onde pudemos ver o vulcão por fora, todo esculpido por moais, e por dentro, expondo sua magnífica cratera cheia de água. As crianças ficaram impressionadas com o tamanho das esculturas, o peso que deveriam ter e no que deveriam estar pensando os Rapa Nui quando esculpiram aquelas expressões.

Nós na fábrica de moais
Nós na fábrica de moais

Visitamos a plataforma cerimonial de Ahu Tongariki. São 15 moais de costas para o profundo azul do Pacífico, como que protegendo a ilha. Aliás todos eles ficam nessa posição. Sempre de frente para a ilha e de costas para o mar. Apenas um conjunto deles fica no sentido oposto. O Ahu Akivi. Esses representam os exploradores. Aqueles, que pela lenda, teriam chegado primeiro na ilha.

Meu moai favorito de Rano Raraku
Meu moai favorito de Rano Raraku

Visitamos também um vulcão menor, o Puna Pau, de onde eles retiravam a rocha para esculpir o Pukao, chapéu dos Moais. Mas sem dúvida o que mais impressionou foi o Rano Kau. Para mim, rei dos vulcões. Percorremos uma trilha enorme que margeia toda a sua borda. Enquanto caminhávamos, olhávamos a cratera lá embaixo. Nos sentímos tão pequenos, tão insignificantes e ao mesmo tempo tão abençoados de estar ali… Algo meio inexplicável. Não sei se pelo fato de estarmos esquecidos do mundo real ou se pelo fato de estarmos misturados a uma rocha milenar, a questão foi que ficamos muito mexidos. Foi intenso.

Ilha de Páscoa_Chile
Moai de Orongo. Hoje no Museu Britânico

Logo ao lado do imponente Rano Kau estava Orongo, um parque onde se encontra reproduzida uma aldeia cerimonial e onde deveria ter um moai, mas que só encontramos a plataforma vazia. O moai em si foi levado para o Museu Britânico e nunca devolvido. Mais um desses casos de roubo histórico que tornam os museus europeus belíssimos e a cultura do outro país expropriada. Rafa teve a oportunidade de ir a Londres a trabalho e trouxe esse moai de volta para cá. Pelo menos virtualmente o devolvemos para onde nunca deveria ter saído. Ali, naquela aldeia, distante de tudo, era onde acontecia o desafio do homem pássaro que as crianças foram apresentadas no filme. E enquanto ali estivemos pudemos ter uma idéia (mínima!) do quão corajosos os caras eram. Uma loucura. Se jogar do alto da encosta, nadar até a pedra, trazer o ovo da Manutara, ave que anualmente vem se reproduzir na ilha, e ainda voltar todo o percurso com o ovo intocado… Só super herói! Eu fiquei enjoada só de pensar…

Voltaríamos ao imponente Rano Kau mais uma vez durante aquela semana, só para senti-lo, namorá-lo, para levar um pouquinho daquela energia conosco. Voltamos a Anakena também, para relaxar em suas areias claras e deliciar as crianças com o mar tranqüilo. Neste retorno aproveitamos para descobrir a pérola da ilha. A praia de Ovahe. Uma prainha encravada na montanha, com uma pequena faixa de areia rosa que desaparece totalmente quando a maré sobe. Ela fica escondidinha, bem ao lado da badalada Anakena. No fim do dia tivemos que molhar os pés para deixar essa preciosidade.

Também nessa parte da ilha fica o tão falado umbigo do mundo. Bem entre Anakena e o Ahu Tongariki. Pois é, achamos! Uma enorme pedra redonda e extremamente polida cercada por outras quatro pedras menores, mas igualmente redondas e lisinhas.

Umbigo do mundo
Umbigo do mundo

Enfim colocaríamos a mão no centro da Terra. Coçaríamos o umbigo do mundo. Um lugar famoso pelo seu magnetismo e sempre cheio de turistas ansiosos por sentir uma vibração diferente e fazer mais um selfie para o Face. Confesso que nenhum de nós sentiu nada que se aproximasse ao que experimentamos no Rano Kau, mas foi bacana podermos dar as mãos naquele lugar místico. Ah, e conseguimos toca-lo sem turistas por perto, o que sem dúvida foi uma experiência fascinante. Aliás, morri de rir com a perfeita definição de turista dos meninos do blog Andarilhos do Mundo. Definitivamente somos viajantes! rsrsrsrs

Ainda tivemos energia para visitar Papa Vaka, uma trilha de petroglifos onde nos divertimos horrores encontrando explicações fantasiosas para cada desenho na pedra.Criamos várias histórias.Os arqueólogos ficariam de cabelo em pé com a imaginação das nossas crianças de apartamento!

O Natal chegou e foi mágico. Assim que chegamos à Ilha, fizemos um amigo oculto. Entre nós quatro! Difícil foi conseguir não tirar a si mesmo. O presente? Tinha que ser algo local, ter um significado em si e, se possível, ser adquirido sem o uso do vil metal. Passamos os dias conhecendo Páscoa e literalmente buscando algo na ilha que pudesse ser levado conosco. Nossa ceia foi regada a vinho chileno, suco de maçã, bolo comprado e quase vencido, batatas fritas e chocolate. Trocamos pedras, potinhos de areia, cartões postais e muito amor. Foi o Natal mais barato que fizemos e o que ganhamos os presentes mais caros. Presentes que dinheiro nenhum pode comprar e que certamente levaremos conosco para outras vidas.

Antes de retornarmos a civilização ainda ganhamos um último brinde dos deuses. Um super pôr do sol no complexo Tahai, bem pertinho do nosso hotel.Foi só contornar o cemitério, bem rapidinho é claro, encontrar um confortável lugar no gramado e esperar a natureza fazer o resto. Espetáculo ímpar.

Pôr do sol no Complexo Tahai
Pôr do sol no Complexo Tahai

Foram sete dias únicos que tivemos a oportunidade de apresentar mais uma cultura para nossas crianças de apartamento. De levá-los a experimentar caminhadas em solo vulcânico, tocar rochas milenares, nadar em outros mares, respirar outros ares, dormir novos sonhos.

Foi difícil fechar as malas. Ficaram pequenas para tantas recordações. E no vôo de volta, antes de chegar a Santiago, ainda pudemos ouvir: “a próxima será para onde?”

Abaixo, algumas de nossas imagens da Ilha.

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Comentários

  1. 13 de outubro de 2014 at 01:11 — Responder

    Impossivel não viajar nas suas crônicas.Amei esta viagem ao Chile.
    E o Natal?Os presentes sem gastar $$$$$$.
    Enquanto isto,nós passamos o Natal mais saudoso de vocês quatro.Não encontraram o nosso Papai Noel,por lá? Ele também nos deixou órfão.
    Quando sai o livro de crônicas?
    Esperando o próximo…

    • 13 de outubro de 2014 at 20:45 — Responder

      Ah, a saudade bateu forte por lá também, mas logo chegou a virada do ano e pudemos estar juntos novamente. Amo você, Lúcia Céa!

  2. Nídia Blanco Villela
    14 de outubro de 2014 at 15:37 — Responder

    Impressionante registro! A foto do Pedro “segurando” um dos Moais, com você pequenininha… Sensacional! Os incríveis presentes do Natal (realmente caros e inesquecíveis) … Malas pequenas para tantas recordações… Pura poesia!
    Cultura, amor e humor. Mais uma vez, PARABÉNS, menina linda!

    • 17 de novembro de 2014 at 19:51 — Responder

      Foi realmente único mãe. Entrou para o baú das recordações especiais.

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