Cabeça de Mãe

Autonomia ou atalho ?

Autonomia ou atalho?

Cresci dependendo de meus pais. Dependendo de uma autorização, de um ok, de um olhar. Nada no reino encantado de nossa família podia ser feito sem consentimento. NADA. Se estivesse sol, eu de férias e sem nada para fazer, não podia entrar na piscina sem um “manhê, posso cair na água?” Se estivesse sem sono também não podia ficar na sala e dormir mais tarde, esperando o sono chegar. Meu quarto me aguardava desde às 20:30. Novela das oito, nem pensar. Vai ver é por isso que não curto esse tipo de programa. E eu não era uma exceção. Minhas amigas respeitavam os mesmos contratos. Isso era pré-estabelecido desde o útero, eu acho.

Quando nos dirigíamos a um adulto era sempre olhando para cima, com um “seu” ou “dona” precedendo o nome e nunca, mas nunca mesmo, podíamos respondê-lo. Ele tinha sempre razão. Mesmo quando não tinha. Depois, caso ele estivesse mesmo errado, minha mãe até resolvia a situação, em casos bem extremos, mas nunca eu. NUNCA. Eu falava com ela e ela com a tal pessoa. Era uma hierarquia muito bem definida e respeitada.

Se um adulto tinha sempre razão, a professora então… Essa era inquestionável. Pelo menos por seus alunos. Ali, ela era pai, mãe e juíza. Se ela definia uma coisa você tinha duas opções: obedecer de pronto ou reclamar com seus pais, e então você obedecia e ainda ficava de castigo. Ou seja, o professor era o senhor daquele castelo chamado sala de aula e nem você nem seus pais interferiam nisso. Aliás, seus pais já havia aprendido isso com os pais deles e assinavam embaixo dessa verdade absoluta. O professor era um ser quase etéreo. Se ele olhasse feio você tremia, se ele te desse um sorriso você ganhava o mundo. Ele te ensinava a segurar no lápis, a sentar com classe e postura, a ouvir, a falar, a se calar. Ensinava que 2+2 era igual a 4, que D. Pedro foi imperador do Brasil, que hino nacional se canta com muito orgulho e sem nenhuma brincadeira, que a caneta vermelha significa que você tem que estudar mais, que o uniforme é sagrado e não pode ser customizado (exceto no último dia do ano quando todos podiam escrever na camiseta), que unhas devem ser cortadas e sapatos devem estar sempre limpos. Ele era o cara. Ou ela era, já que na maioria dos casos eram mulheres que povoavam as escolas primárias. Ela te deixava tranquilo que todos eram iguais, mesmo que tivesse uma quedinha indisfarçável por um ou outro coleguinha. Tudo era sempre igual e essa certeza dava uma segurança incrível. A mãe de ninguém entrava na sala para questionar seus métodos, suas roupas, seu tom de voz. Ali a mãe era figurante. E feliz com esse papel.

Hoje vejo tudo tão mexido, transformado, customizado… Pais se orgulham dos filhos recém saídos das fraldas se virarem sozinhos. Filhos que tem telefone celular, perfil em rede social e fones nos ouvidos até para dormir. Filhos que escolhem a cor do cabelo, o esmalte das unhas e o tom que vão usar com o adulto da vez. Hoje esses mini adultos se julgam tão senhores da situação que a gente até duvida de que eles tenham apenas uma década de existência. Eles escolhem o restaurante que vão almoçar no fim de semana, se vão ou não participar de um passeio em família, escolhem o amiguinho que vão levar para casa, o destino da próxima viagem e ganham de mesada o que a gente nunca ganhou de presente de aniversário. Tem alguns que ainda escolhem se gostam ou não do professor e se ele está agindo ou não dentro dos limites. Tem outros que antes dos 10 já viajaram sozinhos e portanto já “se viraram” em mais de um estado, às vezes em mais de um país.

A isso, os pais orgulhosos, dão o nome de autonomia. Eu me pergunto se não seria apenas um “atalho perigoso”. Isto porque se por um lado se torna mais fácil delegar decisões aos pequenos, livrando-nos de tarefas cansativas e desgastantes, por outro acabamos pulando etapas e encurtando o caminho para o futuro. Em outras palavras, se ensinamos que se bastam sozinhos aos 10 temos que aceitar o pacote completo e deixar de suspirar pelos cantos culpando a escola, o déficit de atenção ou os aparelhos eletrônicos por reproduzirem atitudes cada vez mais deselegantes, desrespeitosas e pouco afetivas. Se implementamos uma nova criação hoje não podemos esperar para amanhã os resultados de ontem. Nessa nova matemática, 2+2 nem sempre dará 4.

 

 

 

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Comentários

  1. 17 de junho de 2015 at 16:57 — Responder

    Parabéns pelo excelente artigo ! Compartilhei-o no Facebook e no Google +

    • 18 de junho de 2015 at 08:31 — Responder

      Obrigada Vileite! Feliz que tenha gostado e passado adiante! Obrigada!

  2. Nídia Blanco Villela
    17 de junho de 2015 at 19:56 — Responder

    Ufa! Desta vez acho que fui a primeira, filha!
    Concordo totalmente e vou além. Vejo pais transferindo suas responsabilidades para os filhos, tamanha a ausência. E aí, para “mostrar serviço”, quando são chamados à escola por algum problema da criança, ofendem, desrespeitam os professores para que os filhos vejam que seus pais saíram em defesa deles, que entre o professor e o filho, é o filho que está certo. Totalmente equivocados. Os limites, que deveriam ser dados em casa, pela família, estão sendo dados pelo professor. É o professor que diz NÃO, que diz NÃO PODE. Muitos casos de agressões a professores são causados pelo desrespeito da família à tão nobre profissão.
    Parabéns, menina! Amei!

  3. Dora Martini
    18 de junho de 2015 at 10:44 — Responder

    nossa, Nídia, você foi direto ao ponto: é difícil educar. Nós não aprendemos que seria fácil transmitir aos filhos nossos padrões educacionais, claro, adaptados ao tempo atual. A escola é partícipe na educação e, não, protagonista!!!!
    Mas muita gente, no fundo, sente que é mais fácil delegar e não percebe que o filho, seja em qualquer idade, está solicitando “amor, atenção” quando passa dos limites!
    Será que ainda se tem tempo de passar a mensagem à geração atual de pais que, porque tem que trabalhar, prover o sustento da família, não percebe o quão difícil e nobre é sua missão de educar e fazer com que o 2+2 totalize 4?

  4. Nídia Blanco Villela
    18 de junho de 2015 at 19:42 — Responder

    Primeiro quero colocar que é com muita satisfação que respondo seu comentário, Dora. Karin gostou tanto de você quando do passeio que fizeram à Petrópolis, em especial à Casa Stefan Zweig. Contou com entusiasmo a longa conversa que vocês tiveram e agora eu tenho a oportunidade de me dirigir a você. Sinto-me feliz com isso!
    Pois é, Dora, educar dá trabalho. No entanto, se cedo cuidarmos com carinho e firmeza de nossas plantinhas, elas crescerão bonitas e nós colheremos os frutos de nosso trabalho.Sem dúvida, há exceções, mas não é a grande maioria. Leio nos jornais casos de professores que são agredidos por alunos e fico muito preocupada e triste. A vida está difícil, pai e mãe precisam trabalhar, mas o tempo que estiverem juntos tem que ter qualidade, concorda? Esse assunto daria uma boa e profunda discussão. Quem sabe um dia você aparece aqui no Rio e bateremos longos papos? Será um grande prazer, Dora. É só falar com Karin e ficaremos todos felizes.

  5. Dora Martini
    22 de junho de 2015 at 10:33 — Responder

    Nídia: muito prazer em, virtualmente, conhecê-la. Quando for ao Rio e rezando para o tempo permitir,
    vamos nos encontrar e bater um prazeroso papo, tenho certeza!

  6. Nídia Blanco Villela
    25 de junho de 2015 at 10:57 — Responder

    Aguardo com alegria seu contato, Dora!

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