Cabeça de Mãe

A mistura que somos.

A mistura que somos.

Eu li em algum lugar que nós somos o resultado dos livros que lemos, das viagens que fazemos e das pessoas que amamos. Eu acrescentaria também dos filmes que assistimos.

Essa frase, depois vim a descobrir, é de Airton Ortiz, um escritor que vive viajando e contando detalhes do que viu. Nada mais coerente.

Livro é uma coisa estranha. Fabulosa mesmo. Não precisa ter imagem (aliás, até prefiro que não tenha para não atrapalhar minha imaginação), nem capa bonita (embora muitas vezes eu tenha sido atraída pelas mais bacanas), mas é capaz de milagres. Um monte de letras numa página te transporta para outra dimensão e isso pode ser extremamente útil. Por exemplo, eu não curto muito aviões. Amo viajar, mas não amo aviões. Toda vez que entro em um penso que pode ser meu último suspiro. Acho aterrorizante aquele momento pré-decolagem, quando tá todo mundo se arrumando, apertando a bagagem de mão nos compartimentos sobre nossas cabeças, aprontando as crianças, rindo, falando alto… Eu fico olhando todo aquele alvoroço e é inevitável não lembrar daqueles filmes catastróficos em que as máscaras de oxigênio caem, mães gritam, crianças choram e ninguém vive feliz para sempre. Uma vez me disseram que era para eu não me preocupar pois todo mundo tem sua hora. Se o objetivo era me animar, não foi atingido. Me fez pensar: e se for a hora do meu vizinho de poltrona? Ou do piloto? Sobra pra mim também? Bom, é nessa hora que o livro salva a pátria. Abro uma porta para outra dimensão e me atiro, sem máscara de oxigênio nem paraquedas. Me desconecto completamente. As insuportáveis turbulências se tornam massagens relaxantes. Comigo funciona. Por outro lado pode ele me causar alguns constrangimentos também. Como numa vez em que lia num ônibus lotado o Caçador de Pipas. Fiquei tão distraída que nem percebi que estava aos prantos. Só me dei conta quando já ia saltar e a moça ao meu lado me perguntou o nome do livro, para ela nunca comprar. Péssima propaganda a minha. O fato é que leio muito. E confesso que me sinto mais segura carregando um livro na bolsa, mesmo sabendo que nem sempre conseguirei lê-lo. Tenho preferências, é claro, mas cada um a seu jeito, me ensina alguma coisa. São ótimos companheiros, nunca te abandonam, não enchem teu saco falando o que você não quer ouvir e nunca se cansam. Os melhores.

Viagens não poderiam ficar de fora. Tem gente que viaja para comprar, tem gente que viaja para comer, tem gente que viaja para descansar. Eu viajo para viver. Para mim é estimulante compreender outras culturas, calçar outros sapatos, vestir novas vidas. Me divirto indo a mercados, usando transporte coletivo, fazendo feira, sentando em cafés, praças e parques. O novo me instiga. O diferente me atrai. Quero conhecer, aprender, viver mais. Às vezes penso que uma vida só é muito pouco, talvez por isso, eu queira absorver tantas outras por aí. Viajar, pra mim, é viver livre de conceitos pré-estabelecidos, de amarras, de prisões e pecados. Viajar é viver intensamente. Viajar é trocar a roupa da alma, já dizia Quintana.

As pessoas que amamos também acabam nos definindo, mesmo aquelas que amamos por engano. Penso que todos que passam por nossa vida servem para nos deixar um ensinamento. Uns nos ensinam como devemos ser. Outros nos ensinam como não devemos ser. Algumas pessoas funcionam como amarras, âncoras. Te mantém firme. Às vezes querem te manter tão firme que acabam te afundando. Daí é hora de soltarmos as amarras. Outras parecem que são recheadas de gás hélio e te fazem querer voar, flutuar, ir mais alto. Tem aquelas que tem gosto de tarde chuvosa e bolo quentinho, que você gosta de correr para perto quando quer aconchego. Tem outras que parecem movidas a sonífero, você até gosta do papo, mas não consegue parar de bocejar. Tem umas estranhas que te dão medo antes de abrirem a boca. E tem aquelas que você quer ao seu lado o tempo todo, mesmo quando estão irritadas, zangadas ou chorosas. Essas têm de ser as primeiras a ouvir sua novidade, com quem você quer dividir os mais escabrosos segredos, com quem você quer viver pra sempre. Para elas você quer dar boa noite e bom dia. Todo dia. E quando se afastam seu mundo fica mais real, menos utópico, menos cheiroso, menos divertido. Seu coração aperta e você começa a sentir dor em partes do corpo que você nem sabia que existiam. E quando voltam é Natal novamente. Essas são as melhores.

Já os filmes são livros líquidos. Livros que a gente pode assistir acompanhado, que pode dividir a gargalhada e compartilhar o choro. Gosto de filme que me faz pensar, que me mantém conectada e me surpreende. Um bom filme tem que me causar alguma emoção, me incomodar, me tirar da zona de conforto, me fazer rir ou chorar. O filme que não produz qualquer reação, que muita gente chama de filme para distrair, não deixa marcas. Assim como o livro, o filme também me carrega por inteira para dentro da tela. Eu sinto dor, pena, angústia, alegria, medo… Eu não consigo assistir friamente como Karin. Talvez por isso meus filhos sempre fiquem me olhando, esperando minha reação, quase pedindo por ela. E depois que eu lhes concedo esse brinde, voltam a olhar para a tela.

Se realmente somos fruto desse mix de livros, filmes, viagens e amores, e acho que somos mesmo, percebo admirada que por mais que alguns ainda arranhem no alfabeto e nem se incomodem com isso, outros tantos lutam bravamente para ganhar Oscars e Pulitzers.

E viva a diversidade!

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Comentários

  1. Liana Montero Valdez Placenti
    17 de junho de 2016 at 10:13 — Responder

    Mais uma vez, encantada com sua crônica. Maravilhosa. Bjs saudosos.

  2. Nidia Blanco Villela
    21 de junho de 2016 at 18:23 — Responder

    Lindo demais, filha! Talvez sejamos mesmo essa mistura de filmes, livros, viagens… Esse leque de personalidades com que nos deparamos, constantemente, e o sentimento que despertam em nós, foi tão bem explicitado, que à medida que lia, automaticamente, as figuras iam se encaixando na descrição. E perfeito quando você diz: “Penso que todos que passam por nossa vida servem para nos deixar um ensinamento. Uns nos ensinam como devemos ser. Outros nos ensinam como não devemos ser.” Demais! Também me chamou a atenção sua fuga através do livro. Uau! Maravilhoso! Parabéns, mais uma vez, menina! Beijo.

    • 22 de junho de 2016 at 08:12 — Responder

      A gente vai aprendendo, né mãe? A minha sorte é que tenho excelentes professores. Te amo. Ah, e quanto a fuga pelo livro… funciona de verdade! rsrsrsrsrs Bj

  3. 24 de junho de 2016 at 14:14 — Responder

    Gosto muito destas fugas,Leitura leve descontraida,inteligente .Cheguei a sorrir,quando a sua acompanhante no voo,lhe vendo chorar,pergunta o nome do livro,para que ela não leia

    • 28 de junho de 2016 at 08:05 — Responder

      Pois é… Às vezes a gente dá essas mancadas. Rsrsrsrs

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